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Dia a Disco

Um cotidiano musical. É tipo "Julie & Julia", só que "Eu & Discos"
Apr 16 '12

O novo endereço

é:
www.diaadisco.wordpress.com.

Redirecione-se, por gentileza! 

Mar 31 '12

#200 Amor de Índio - Beto Guedes

Mar 27 '12

#199 World, You Need a Change of Mind - Kindness

Crítica essa semana, ainda!

Mar 27 '12

#198 Efeito das Cores - Mahmundi

Crítica lá no Fita Bruta, mas já adianto: disquinho ruim!

Mar 22 '12

#197 Skit I Allt - Dungen

Se eu tivesse que dizer alguma coisa sobre o pop rock - mais pra Spoon, menos pra Jota Quest - ocidental tradicionalesco (e eu frequentemente me obrigo a escrever sobre esse tipo de coisa), eu diria que a maioria das bandas que conheço trabalha como um lutador profissional. É uma questão, então, de (1) ambiente (o ringue) , (2) vestimenta (shorts de cintura alta, tênis especiais de cano alto, protetor bucal) e (3) estilo (o jab, o direto, o gancho, o cruzado, todos acima da cintura). Cada tempo tem sua sina, mas é dá pra dizer que esses grupos (artistas, compositores, músicos) todos se inserem (1) num imaginário de prazeres muito bem definido, uma espécie de arena em que se prevê a utilização de uma série de mecanismos que lhes são caros e, se não houver cuidado, restritivos; (2) se utilizam de timbres de sigificados convencionais ou prescritos, de posições muito bem delimitadas, a combinação mais comum sendo a do vocal-baixo-bateria-guitarra; e (3) dominam aquela mesma série de mecanismos já citados, os graves decrescentes, os estrofe-1-refrão-estrofe-2-refrão-estrofe-3-ponte-refrão’s, as melodias familiares, um senso (quando bons) de inércia e movimento perpétuo e, o mais importante pro texto de hoje, a noção de que trabalham com golpes, com ganchos.

Explico: à maneira de uma luta de boxe, uma canção pop trabalha com socos. Dá-se o tempo de um round (dois, três, quatro minutos, no caso da música) e o artista faz o que for necessário pra levar o ouvinte ao nocaute, tomando muito cuidado pra não golpeá-lo quando estiver no chão. São os chamados ganchos, cuja disposição esperta garante uma faixa (ou um disco) que muito provavelmente vai ser ouvido até o fim, e mais provavelmente ainda vai se grudar no ouvido do oponente. O que não significa que se trate de uma música boa - uma discussão mais sobre individualidades e menos sobre “leis” gerais - só garante o encaixe dessa ou aquela faixa num gênero de definição eternamente controversa. O engraçado, dito isso, é que, se a qualidade se dá geralmente por uma espécie de personalidade bastante reconhecível, ainda que compartilhada por mais de um conjunto (os tais sons “derivativos”), uma música pop ruim é bastante previsível, em sua falta de qualidade: trabalha com golpes abaixo da cintura, investidas  de dores possivelmente insuportáveis, mas antiéticas, reprováveis, trapaceiras.

Há exemplos do bem - a saraivada de golpes dessa aqui, os acordes oblíquos dessa outra ou a progressão cirúrgica maravilhosamente programada dessa e, do outro lado, o chute no saco (mau sentido) dessa e a canelada dessa - mas por grande que tenha sido essa pequena produção, minha intenção é falar de outro esporte. E de outros artitas.

É bom começar falando de Milton, talvez porque ele seja o mestre dessa outra modalidade, uma que não prevê tanto um adversário quanto toda uma gama de adversidades de percurso. Milton, pelo que ouvi do rapaz - e, nessa discussão, “Clube da Esquina” é o melhor exemplo, sendo o disco do tênis do Lô Borges um bom parâmetro, também - é um maratonista pop. Ele e Lô, então, não trabalham por meio de golpes, muito porque não se trata de um esporte de combate. É, de certa maneira, um trabalho solitário e frequentemente ingrato, o deles: corre-se um mundo pra que seja absurdamente provável que um bestinha simplesmente “não tenha paciência” para a música deles. Isso porque “Dos Cruces” e “Clube da Esquina nº 2” são músicas infláveis, canções que vão se enchendo de gravidade à medida que são ouvidas, cuja beleza tem menos a ver com momentos específicos (aquela guitarra, a outra parte em que o cantor dá um gritinho, etc.) do que com um senso de tempo inteiro, uma unidade temporal que dispensa segundos, minutos. Se pauta pela própria duração. São o mínimo múltiplo comum de si mesmas, irredutíveis, inquebrantáveis. É óbvio que o "Clube" e o "Tênis" tem singles, faixas que prevêem algum tipo de golpe - e nocautes memoráveis, diga-se de passagem - mas são canções impregnadas da lógica da maratona: resistência, constância, água administrada com parcimônia. Tudo por uma meta, longínqua, mas realizável.

A mesma lógica do Dungen, nesse disquinho cujo título significa, muito ironicamente, “Que tudo se foda”, lançado em 2010. Nada se fode, aqui, ninguém se manda às favas. Ao contrário: partindo de uma introdução - a visual, a da capa - estereotípica na “energia” que passa, os suecos fazem um disco muito bem organizado, tanto formado de canções quanto uma canção inteira. A maratona é assim: dentro de si, milhares de trajetórias menores, interconectadas, todas igualmente essenciais, imprescindíveis tanto às suas irmãs quanto ao organismo inteiro de um disco. “Vara Snabb”, então, faz a introdução perfeita, o vagar muito solto de uma banda que, à primeira vista, toca uma canção bonita que “não vai a lugar nenhum”, talvez porque não seja a hora de chegar a algum lugar.

É por causa desse tipo de raciocínio - o de chegar a algum lugar, o de ouvir músicas a partir de um viés utilitário - mais nosso que deles, que seja preciso paciência pra muitos e mais de algumas vezes com o disco pra todos até que ele comece a fazer sentido. Se eu fosse normativo - e um pouco tonto, vá lá - eu diria que “Skit i Allt” é um trabalho de ganchos escondidos, de prazeres enterrados. Mas não: “Skit i Allt” é um disco de prazeres óbvios: nós é que não estamos acostumados. E é por isso que esse tipo de disco passa desapercebido, é por isso que muita gente talvez nunca consiga ouvir o “Clube” até o fim - a comparação aqui, por sinal, é de método, a qualidade de cada um é discrepante, sendo os três (“Disco”, “Clube” e “Skit i Allt”) bons, no mínimo - ache o disco do tênis apenas (sono)lento demais, que ache o “Que tudo se foda” dos suecos só bonitinho, mas meio tedioso. Besteira. É preciso dormir com discos.

Dizem - eles mesmos, ao longo do álbum - que o Dungen é uma banda psicodélica. E digo que, novamente, são de outro tipo de psicodelia, o mesmo em que se encaixam, também, Milton & o Som Imaginário, Lô e Beto Guedes. Pois se a imagem comum - e mais frequente - do psicodélico é o de um artista que faz música “lokona”, os artistas em questão são sacerdotes, hippies que não são tanto hippies quanto partes integrantes da natureza, originais, habitantes e mantenedores dela. Detentores de rituais, de cerimônias, ritos de passagem. A diferença entre “O Milagre dos Peixes” e “Odessey & Oracle”, então, é a que há entre a psicodelia natural e a adquirida. A do Dungen é um misto dessas duas, puxando mais pro lado da primeira, pra beleza dispersa (esparramada) de coisas como “Blandband” e “Soda”.

O resumo desses discos é que muita gente vai se perguntar se eles são bons mesmo, menos gente por que são bons e menos gente ainda vai se responder o que eles realmente são. Eu digo que são álbuns de beleza de revisita, de segunda vez, de ouvinte aplicado. Música de maratona, enfim.

Mar 18 '12

#196 Step in the Arena - Gang Starr

LADO A

Minha primeira vez com esse disco é o tipo de coisa que se ouviria da noite de estréia sexual de um adolescente desajeitado. Ouvido preparado e mp3 a postos, pareceria que estava tudo certo, aos olhos que não me observaram ouvir este disquinho de hip hop de 1991, lançado no que se costuma chamar da “era de ouro” do gênero. Feito o rapazinho que mal sabe em que buraco se encaixar, por não saber muito do buraco certo, a coisa acabou desandando, na tentativa inicial, e não seria surpreendente se, nesse processo, o que eu pensei do Gang Starr fosse justamente a mesma coisa que o jovem em questão teria achado de seu primeiro sexo: “Parece bom, mas me falta treino, momento, química.”

Pois bem, me afastando - por ter partido dela - de qualquer outra analogia sexual que me faria correr o risco de soar grosseiro ou meio besta, digo que minha primeira experiência com “Step in the Arena” foi a de perceber - sem um envolvimento satisfatório, suficiente - que o que se sentia era bom, de fato, ainda que a alma se mostrasse imperturbada.

É o tipo de coisa que deve acontecer sempre, na rotina de um crítico de jornal: dá-se o disco, disponibiliza-se o espaço e respalda-se o autor, mas falta vontade, momento, timing pra que a audição daquele disco realmente aconteça, ainda que o juízo final (trocadilho inadvertido) preveja uma crítica negativa. Daí o método que esclareci no primeiríssimo post do Dia a Disco, o que determinava como obrigatórias algumas condições à primeira vez de um disco, o equivalente à luz de velas, às pétalas de rosas, ao quarto de hotel chique e ao tesão irrefreável que o príncipe encantado arranja pra protagonista de um desses romances de banca, a saber: uma mente atenta (iluminação), uma cuca convidativa (as rosas também falam: “entre”), um fone decente (ah, a privacidade!) e uma vontade mínima de descobrir um disco, mesmo quando essa vontade sustenta um tipo de sofrimento íntegro, da primeira à última faixa.

Nem sempre isso é possível, admita-se de passagem, e é por isso que a curadoria, aqui, é tão aleatória: não dá pra prever que, amanhã, estarei absolutamente disposto a ouvir um disco imprescindível de rock cinquentista, digamos, o melhor disco dos Ramones ou uma coletânea com as 25, 50, 100, 150 - pelo que dizem, a década foi frutífera - melhores músicas dos anos 1960. Esse tipo de coisa não se arranja: toma-se o que tem e se faz do que tem o melhor.

Com uma dose de exercício, no entanto, é capaz é normal que se desenvolva uma rede de segurança, um sistema que impede que toda primeira vez cuja audição não se dá no nível do ideal acabe indo pro saco, e ouvir “Step in the Arena”, pra mim, foi um exemplo desse mecanismo entrando em ação. Segurei as pontas de um sol escaldante, uma noite mal dormida e uma primeira vez que, embora ininterrupta, me fazia querer interromper o disco a qualquer hora. Não porque fosse ruim, mas porque eu estava ruim pra ouvi-lo. Esse tipo de situação, quando ocorre comigo, chega a ser até engraçada, porque a própria ciência de que o disco que ouço não é ruim me estimula a fazer com que isso coincida com o sentimento de que um álbum seja, de fato, valoroso. Daí que, além de culpabilizar o ambiente, o momento, a vontade, acabo encucando com coisas “bestas”, achando que o volume tá muito baixo, que a má qualidade do mp3 (320kbps é o ideal) me barra um prazer maior, que baixei arquivos corrompidos: nóias, enfim, que me vêm tanto porque eu sei que o timing era incorreto quanto por saber que o disco que não sinto bom é de fato bom. O que me impede, por fim, que dê a audição por terminada, a opinião estabelecida e a cabeça tranquila quanto àquele disco: voltarei a ele outras vezes. Essas, sim, “de verdade”.

Mar 18 '12

#195 Kindred - Burial

Crítica lá no Fita Bruta!

Mar 18 '12

#194 Interstellar - Frankie Rose

Crítica lá no Fita Bruta!

Mar 18 '12

#193 A Series of Sneaks - Spoon

Mar 5 '12

(#2) Gal Macalé

Composição é uma coisa meio delgada, o esqueleto de uma música; o mínimo denominador comum entre, digamos, duas versões; ou uma ideia posta entre a canção e ela mesma. Se for de alguma ajuda, vale até imaginá-la como um papel composto, as notas separadas na pauta, clave de sol, clave de fá. Um pensamento em som, uma abstração. Uma coisa muito simples, portanto. Irredutível.

Complica mesmo é na hora de traduzi-la, que é uma palavra ótima pra falar sobre essas coisas: composição nenhuma tem só uma verdade (uma só voz, uma só língua), e a certeza disso está, justamente, nas versões que Gal faz de Macalé nessa belezura de 1971. Pelo que me consta, “Vapor Barato” só apareceria como um lamento-vinheta de menos de 30 segundos em ”Jards Macalé” (1972), a mesmíssima coisa que aconteceu com “Hotel das Estrelas” - lançada no mesmo disco e com presença anteriormente duplicada em “Legal” (1970) - e “Mal Secreto”, a quarta faixa do disco auto-intitulado do músico carioca.

Até agora, só informação. A (1) curiosidade é que duas dessas composições, na voz de seu “pai”, aparecem em versões mais enxutas, alguns trechos de música e letra a menos. A (2) verdade é que “Hotel das Estrelas”, “Mal Secreto” e “Vapor Barato” contém, em si, milhões de verdades - é questão de revelá-las.

Daí suas versões definitivas, tanto no compacto de 1971 quanto na gravação ao vivo de “Fa-Tal Gal: A Todo Vapor”. “Hotel das Estrelas” em versão ora quieta, ora estourada (“Hey hey hey, mãe, isso faz muito tempo!”) de mpb roqueira ocasionalmente dissonante, deliberadamente solta, falha, crua; “Mal Secreto” na mesma linha, com a guitarra funkeada, arranhada, pontual e certeira, introduzindo uma emoção do tamanho da Baía de  Guanabara (“Vejo o Rio de Janeiro”); e “Vapor Barato” como suplício último (“Fa-tal”) ou a imposição firme e triste de uma vontade no compacto.

Tudo isso pra dizer que a verdade absoluta dessas canções é tanto de Gal, Lanny, Novelli, Baixinho e Jorginho quanto de Jards. Pra dizer que a composição é uma semente, um corpo a ser vestido e revelado, uma caixa-preta esperando pra ser descoberta. Macalé tem a chava, Gal, o segredo.